A roda de oleiro, conhecida também como torno, passou por uma jornada milenar de desenvolvimento. Dos dispositivos rotativos extremamente básicos, até os tornos elétricos de hoje, há uma história a ser contada. E é justamente isso que iremos fazer neste artigo: contar a história do torno. Vem com a gente!
Técnicas ancestrais de cerâmica
Os humanos fabricam cerâmica há dezenas de milhares de anos. As primeiras técnicas para fazer potes incluíam enrolar, beliscar e amontoar a argila nos formatos desejados. Todos esses métodos de fazer cerâmica são anteriores à invenção da roda de oleiro.
A técnica da serpentina, caracol ou rolo é frequentemente citada como o método mais antigo de cerâmica de construção manual. Existem diferentes maneiras de fazer cerâmica de rolo. No entanto, em sua forma mais simples, fazer um pote com essa técnica envolve fazer rolos de argila, empilhá-los gradativamente e amalgamá-los para construir a estrutura da peça. Então, a superfície do pote é alisada com ajuda dos de dedos ou ferramentas.
Há evidências de cerâmica sendo feita usando método muito similares ao da serpentina em diferentes cantos do globo.
Por exemplo, no oriente, a cerâmica Jomon do Japão foi feita pela primeira vez por volta de 14500 a.C. Em África, registros apontam que a cerâmica começou a ser feita por volta de 7.000 ou 6.000 a.C. E há evidências de que a cerâmica de rolo surgiu na Mesoamérica por volta de 2.000 a.C.
Assim, a cerâmica de construção manual, particularmente através do enrolamento, tem uma história de longa data em todo o planeta.
O surgimento do torno
A roda de oleiro como a conhecemos hoje mudou a forma de produzir cerâmica. Uma das características do torno é que ele gira a argila para que o oleiro possa moldá-la. Ao longo de milhares de anos, a roda de oleiro evoluiu, para girar com cada vez mais potência e eficiência.
Entretanto, você pode estar se perguntado: “como essa história começa?” Pois bem, ela tem início em algo que os arqueólogos chamam “dispositivo rotativo simples”.
O dispositivo rotativo
Os oleiros primitivos descobriram que trabalhar a argila era mais fácil se colocassem a base do pote em uma superfície que pudesse ser girada. Muitas vezes, o pote era colocado em uma folha, esteira, caco de cerâmica velha ou um prato côncavo especialmente feito para essa função.
Colocar o barro fresco e macio em uma superfície móvel significava que o oleiro poderia girar o pote com facilidade.
Isso também possibilitava que fizessem o pote de pé ou sentados, sem precisar ficar se movendo muito para adicionar os rolos de argila. Em vez disso, a peça é que girava e os oleiros adicionavam e misturavam as camadas de argila acompanhando seu movimento.
Evidências apontam que dispositivos rotativos simples desse tipo começaram a ser usados por volta de 5.000 a.C na região que hoje conhecemos como Oriente Médio.
O dispositivo rotativo foi um ponto de partida útil na história da roda de oleiro. Por volta de 4.200 a 4.000 aC, a primeira coisa realmente parecida com um torno começou a ser usada. Eram bases (ou plataformas) giratórias, como pequenos bancos em que se apoiava a argila para trabalhar a peça em 360 graus. Em inglês, recebem o nome de turntable e em francês de tournette.
As primeiras bases giratórias eram feitas de madeira, argila ou pedra. Importante ressaltar que elas não giravam com muita facilidade, eram feitas com mecanismos rudimentares.
No entanto, ao longo dos anos, o design das bases giratórias melhorou com o advento de tecnologias desenvolvidas pelos oleiros para que a plataforma girasse com mais facilidade.
O desenvolvimento das bases giratórias
Há evidências destes utensílios sendo usados em diferentes partes do mundo. Por exemplo, há pinturas em lápides no antigo Egito, datadas com mais de 2.000 anos, em que é possível observar a presenta de oleiros trabalhando com bases giratórias.
Todavia, a arqueologia indica que o primeiro uso de bases giratórias para feitio de cerâmica remonta à Mesopotâmia clássica, cerca de 4.000 anos atrás, nas cidades de Ur, Uruk e Eridu.
Cada uma dessas cidades foi a sede de uma civilização crescente e sofisticada chamada civilização suméria, com uma cultura comercial vibrante. Por esta razão, diz-se frequentemente que os sumérios inventaram a roda de oleiro.
Curiosamente, o uso da roda como plataforma giratória de oleiro aconteceu mais cedo na história do que o uso da roda para transporte em carriolas, carroças e afins.
Embora as plataformas giratórias tenham sido um avanço no dispositivo rotativo, os oleiros ainda usavam o método da serpentina para construir potes. A plataforma giratória simplesmente permitiu que eles adicionassem rolos mais rapidamente, acelerando assim o ritmo da produção.
Mas a história da roda de oleiro estava prestes a dar outro grande salto com a invenção do volante. Então, vamos dar uma olhada no que aconteceu com a roda de oleiro quando essa peça entrou em cena.
A roda do oleiro avança
Por volta de 3.000 a.C, a plataforma giratória foi adaptada e ficou mais próxima do que pensamos hoje como um torno. Esta adaptação envolveu o uso de um volante: uma roda giratória pesada, usada para aumentar o impulso de uma máquina e, assim, fornecer maior estabilidade ou uma reserva de energia disponível durante interrupções no fornecimento de energia ao maquinário.
O princípio do volante é que uma roda giratória armazena energia e continuará girando por seu próprio impulso. O termo para isso é “energia cinética rotacional”.
A energia cinética é a energia que um objeto possui devido ao seu movimento. E não surpreendentemente, a energia cinética rotacional é a energia que surge devido à rotação de um objeto.
O volante em uma roda de oleiro faz uso desse armazenamento de energia. Uma vez que o volante está girando, ele continuará em rotação por um longo tempo. Isso é verdade mesmo se alguma pressão estiver sendo aplicada a ela do lado de fora. Por exemplo, a pressão das mãos de um oleiro moldando a argila.
Como essas rodas de oleiro dependem do impulso do volante giratório, às vezes são chamadas de "rodas de impulso". A vantagem dessa tecnologia é que ambas as mãos do oleiro ficam livres para trabalhar.
A Roda de Chute
Em uma roda de chute, há o volante na parte de baixo e a cabeça da roda (onde a argila fica apoiada) na parte de cima. Ambas são ligadas por um eixo, assim, quando o volante gira, a cabeça da roda também o faz.
O pesado volante fica diretamente sob os pés do oleiro, que chutando-o dá início ao movimento giratório. São necessários alguns chutes para fazer o volante girar rápido o suficiente. No entanto, uma vez que está girando, a cabeça da roda, que está presa à outra extremidade do eixo, gira rapidamente.
Alguns oleiros hoje em dia ainda preferem usar rodas de chute, em vez de usar o torno elétrico.
É difícil definir onde a roda de chute surgiu primeiro, pois há diferentes registros que apontam lugares variados, como Egito, Mesopotâmia, China e sudeste da Europa.
No entanto, o que sabemos é que a roda de chute permaneceu a principal forma de fazer cerâmica até a invenção do torno elétrico no século XX.
Roda de Oleiro: uma história fascinante e diversa
Existem diferentes relatos de onde e quando a roda do oleiro foi inventada. No entanto, a arqueologia parece indicar que surgiu pela primeira vez no Oriente Médio.
Em seguida, espalhou-se pelo Mediterrâneo para o sul e leste da Europa. Isso ocorreu durante o final da Idade do Bronze e início da Idade do Ferro.
Em seguida, espalhou-se pela Ásia e, eventualmente, a roda rápida chegou às Américas com os espanhóis no século XV.
No entanto, seu progresso na história não é simples. Por exemplo, em algumas regiões, a roda do oleiro foi “descoberta” e usada durante séculos. Então, a tecnologia seria “perdida” à medida que culturas e civilizações se extinguissem ou fossem substituídas.
Em outras regiões, como Creta, a roda do oleiro era usada pela população em geral, não apenas pela elite. Assim, a roda continuou a ser usada, mesmo quando houve grandes mudanças culturais.
Assim, a história da roda de oleiro varia de região para região e nem sempre é uma jornada direta.
Considerações Finais
A roda do oleiro parece uma invenção muito humilde. Fazer cerâmica, afinal, é moldar a lama.
No entanto, uma breve olhada na história da roda de oleiro mostra o quão influente ela realmente foi. Afinal, ela estava em uso bem antes das rodas serem vistas nos veículos e foi responsável pela primeira aparição prática co conceito de volante.
De muitas maneiras, a roda de oleiro impulsionou a humanidade rumo a avanços tecnológicos nunca vistos antes.